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GAME BOY PUNK

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As actuações dos manipuladores de sons digitais são enquadradas por ecrãs do tamanho de paredes, projectando flashes de luz e Technicolor de pixéis gigantescos que banham os rostos não surpreendentemente adolescentes e masculinos das dezenas de geeks, programadores e ravers que encheram o The Tank, uma espécie de Galeria Zé dos Bois nova-iorquina construída num espaço vazio a curta distância de Wall Street e da Bolsa de Nova Iorque.

Existem em todo o mundo, mas a sua presença é pouco notada e insular. Alguns são músicos, outros são hackers, formados em matemáticas, em engenharias e ciências informáticas e electrónicas.
Estão a substituir as guitarras, o ProTools, os iPods, as turntables e os Macs por Game Boys, Commodore 64, Ataris, velhos computadores ou qualquer outro tipo de máquina obsoleta com um chip de som para criar o novo ruído do underground. Chama-se Chiptune o género musical que durante quatro dias reuniu no Blip Festival, em Nova Iorque, dezenas de artistas oriundos dos Estados Unidos, Canadá, Espanha, Suécia, Áustria, Holanda e Japão.

Este 8 bit punk, como lhe chamou um Malcolm McLaren impressionado com os ritmos arcade do Chiptune, mistura de avant-garde pop digital com reciclagem retro pós-modernista, é ou pelo menos quer ser mais do que um simples exercício de nostalgia aplicado por indivíduos apaixonados pela natureza arcaica e ingénua da primeira vaga de consolas de videojogos e computadores pessoais. Um dos organizadores do Blip Festival, Josh David (também ele um artista que compõe na sua Game Boy sob o alter-ego Bit Shifter) mantém numa entrevista ao Village Voice que não se trata apenas de um apelo nostálgico. “Tens equipamentos nunca antes considerados como instrumentos musicais a serem usados para criar música, e isso resulta numa certa dose de surpresa e interesse nas pessoas que a ela são expostas”. Para não haver confusões: as novas composições não são elaboradas a partir de sons de videojogos, mas da utilização dos chips de som de consolas de 8 bits (contra os 24 bits do ProTools) através de samplers (ou trackers), como o Little Sound DJ, um software mais sofisticado do que possa parecer e que permite pegar no sintetizador interno de consolas como a Game Boy e usá-lo para compor e reproduzir sequências musicais, misturando batidas com os “blips!” e “bóings!” da consola. O software foi criado há três anos por Role Model, um dos membros da cena Chiptune, que o distribuiu em cartuchos de Game Boy até que mais nenhum lhe sobrasse. Hoje é possível comprá-lo no eBay por valores que podem atingir os 330 dólares, ou fazer o download gratuito da ROM de uma versão incompleta no site oficial. No entanto, dependendo da plataforma e software utilizados, qualquer um pode produzir faixas de Chiptune por algo como 15 euros. É música de Feira da Ladra.

Pegar nas velhas consolas deitadas para o sótão ou lixo por suposta invalidade e compreender que há ainda ali matéria-prima latente para ser explorada define a chocante inocência que seduz o antigo manager dos Sex Pistols e auto-coroado Papa do Punk tanto como aos jovens praticantes daquilo que eles sonham ser uma “cena” ou “movimento”.
É algo mais do que simples desvario kitsch, por mais açucaradas que sejam as memórias despertadas pelas melodias lo-tech produzidas por aqueles chips pré-históricos. Para o director artístico do The Tank, Mike Rosenthal, é natural que os miúdos que cresceram com um gamepad da NES ou uma Game Boy na mão, tendo chegado à idade adulta, regressem agora à infância e aos antigos brinquedos para os decompor, transformar e criar algo novo e seu. É pegar naquilo que está à mão e é descartável e com isso criar novos idiomas. Moderno e vintage ao mesmo tempo, e por isso distribuídos tanto em MP3 MySpace como em edições vinil de autor. Música digital de garagem, impregnada de emoções e de humanidade. Suja, crua, futurista, pirata, andróide.

As batidas melódicas de Nullsleep, o electro de Aonami, o hardcore do DJ Scotch Egg (que já passou pela Zé dos Bois), a JPop dos YMCK, a electrónica experimental de Bubblyfish, o techno dançável dos Portalenz, a alegria em Hally, a folktronic de Mark DeNardo e até uma apropriada versão de “Pocket Calculator” por Glomag são novos olhares críticos sobre o papel da música e dos jogos nas nossas vidas.

A 8bitpeoples, que se define como um colectivo de músicos e artistas dedicado a explorar o estilo audiovisual de jogos e computadores pessoais de antiga geração, protege os valores da estética Chiptune e é a principal responsável pela organização do Blip Festival. Coincidindo com a realização do evento, a organização decidiu lançar a compilação “8bp050”, uma peça documental que reúne 50 dos nomes mais emblemáticos da evolução do Chiptune. Podem escutá-la aqui.

[Texto editado a partir do original publicado no jornal UM, edição 5]

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