LISBON CALLING

Acabado de regressar de Londres, onde fui assistir a um espectáculo do Video Games Live e trocar informações e opiniões com autores, Tommy Tallarico e Jack Wall.

Impressionante a qualidade da música, a atmosfera criada pelas projecções e pelos efeitos de luzes, a interacção com o público, e o carácter heterogéneo desse público: muitos jogadores hardcore e jovens, naturalmente, mas também muitos jogadores trintões, quarentões e cinquentões, pais e filhos, muitas mulheres. Os segmentos interactivos, com membros do público a subirem ao palco, conferem ao espectáculo um tom mais humano e teatral.

A sincronização da música com imagens projectadas faz sentido: a orquestra reage às imagens no ecrã, da mesma forma que a música dos videojogos é escrita para reagir às acções dos jogadores.

Estive a fornecer ao Tommy e Jack alguns dados sobre o público português. Posso afirmar com algum à vontade que vamos ter uma ou duas surpresas…

Nas próximas semanas esperem ver informação a rolar sobre o Video Games Live, em revistas, jornais e televisão. Estejam atentos aos passatempos para prémios muito especiais…

Estou ansioso por Dezembro e acredito sinceramente que o Video Games Live merece ser visto pelos portugueses. Pais, levem os filhos; filhos, convençam os pais. Namorados(as) levem as(os) namoradas(os). Amigos, levem os amigos. :-)

DIAMONDS ARE FOREVER II


UPDATE: insistindo na questão do realismo destes jogos. Não é só uma questão de serem credíveis ou realistas – também qualquer aventura ou jogo de acção o pode ser.
É a questão de simularem uma realidade que nos é afectivamente próxima, que é uma realidade do dia-a-dia, que nos embrenha e envolve neles. Por vezes conseguem, pelo simples facto de nos deixarem treinar o nosso clube, conduzir o nosso carro de sonho ou conhecer o mundo pelos ares (Flight Simulator, aí está um exemplo de um outro jogo capaz de consumir uma vida inteira de jogador – embora não seja do meu agrado), ser emocionalmente mais cativantes que milhares de linhas de narrativa supostamente literária. É a emoção da experiência interactiva, que nem filme ou livro ou música são capazes de proporcionar.

Convidados a listar os jogos que levariam para uma ilha deserta, alguns de vós optaram por nomear jogos que talvez coubessem melhor numa lista de preferências pessoais… mas que duvido pudessem ter vida a muito longo prazo. Jogos com narrativas ricas, mas fechadas, como Vagrant Story, Planescape Torment ou Half-Life 2, têm naturalmente uma esperança de vida limitada à capacidade de surpreender e às múltiplas leituras que cada um deles for capaz de proporcionar. Obras que têm na interacção mais pura a fundação sobre a qual são arquitectadas, como Super Mario Bros. 3 podem aspirar a melhores hipóteses de sobrevivência, mas mesmo assim são integradas numa espécie de circuito fechado – isto é, têm um princípio e quase invariavelmente um fim. Team Fortress 2, com a sua natureza aberta, seria, dos vossos exemplos, o que mais condições teria na “minha” ilha… Mas se fosse deserta, a componente multiplayer não teria assim tanta piada. ;-)

Acho que o Pedro TartarugaG está mais próximo daquilo que eu sinto: os jogos de desporto são os mais fiáveis. Esses e os jogos de interactividade pura, como Tetris ou PacMan, os tais que são infinitamente perfeitos.

É a própria natureza do desporto que obriga a que jogos como Pro Evolution Soccer (para mencionar uma preferência pessoal – nada contra o FIFA, que na versão 09 promete e muito) e Football Manager possam ser jogados para sempre. O resultado em aberto, a incerteza no marcador e a garantia de que nunca uma partida de futebol (ou de outro desporto) será a mesma é o que nos faz acompanhar campeonatos ano após ano, após ano. Nunca me canso destes jogos, porque nunca se repetem, como nunca me canso de futebol.

Claro, há outros jogos que são fundados sobre mundos abertos, ou em mecânicas onde a repetição não existe e a imprevisibilidade é total – certos MMOs e, de novo Tetris, são exemplos.

Mas os jogos de desporto que menciono têm outras características. Para começar, são baseados na realidade. Os melhores são aqueles que melhor simulam ao máximo detalhe as variáveis e características do mundo real, para que a nossa imersão seja o mais credível possível – embora sejam versões simplificadas da realidade, já que a reduzem aos elementos mais relevantes e essenciais.

Ao mesmo tempo, e de forma aparentemente contraditória, juntam-lhe uma componente de fantasia e de representação: quando jogo Football Manager, acredito mesmo que sou o treinador Nelson Calvinho, que as minhas decisões têm impacto real. Visto completamente a pele da personagem. E não é uma personagem qualquer: a personagem sou eu.

Já chegou acontecer-me confundir o meu Benfica com o outro, o real, especialmente quando comparo as exibições de futebolistas que coabitam o plantel real e o fictício. Ou quando, por incrível coincidência, o Benfica real decide contratar um jogador que eu já tinha comprado para o meu Benfica imaginativo – e a julgar pelos comentários em sites desportivos, deve haver muita gente a não conseguir distinguir a fronteira entre os dois mundos…

Também sei que não sou o único que já ligou a consola para se vingar no jogo uma derrota real: “ai perdemos com a Alemanha nos quartos-de-final do Euro? Já vão ver como elas mordem!”. Como se conseguíssemos reconstruir o real… jogando. Faz um pouco lembrar a malta que, no terceiro anel de um estádio de futebol, berra instruções para os atletas no relvado, como se essa energiazinha extra pudesse ajudar a escrever a história da partida.

Já agora – e provavelmente não deveria dizer isto aqui – Pro Evolution Soccer é perfeito para jogar durante ou após uma noite de copos bem regada. A concentração exigida por aquele conjunto aleatório de movimentações no ecrã é óptima para recentrar as atenções e nos trazer de regresso à… realidade. E, no dia seguinte, não ficamos chateados por não nos lembrarmos de um pedaço de narrativa fundamental…

Texto sobre Age Of Conan vem de seguida.

Imagem captada directamente a partir da televisão da redacção da Mega Score, durante uma partida de PES.